SOBRE A FESTA

Não pensamos muito nisso. Não pensamos muito em ilustração. Eis um dos aspectos que a tornam interessante: tem múltiplos rostos e experimentamo-los a cada dia (quase) sem darmos por isso. Tem tanto de artesanato como de arte, pode ser erudita e popular, espraiar-se por suportes distintos, entrando em galerias ou repousando em papel, comentando com humor agreste ou deixando-se tocar pela suave melancolia. Em relação com o texto ou com o tempo, tão só isso. Voa abaixo do radar e apanha assim as correntes de ar dos dias. Não pensamos muito nisso, mas perturba-nos e alegra-nos. Um toque de beleza, mesmo quando o assunto é feio. A leveza, mesmo quando o estilo se faz ambicioso. É preciso fazer um desenho? volta a celebrar esta movediça variedade, dando atenção a nomes clássicos como a contemporâneos, suscitando produções exclusivas e recolhendo memórias, propondo pontos de situação. Breves, como desenho em papel de jornal. Mas fundamentais para resolver os enigmas. Não pensamos nisso, mas a ilustração portuguesa possui um mistério: nunca uma geração como a actual foi tão iluminada, isto é, teve tamanha notoriedade, em momento no qual as condições, as propostas e os projectos são rarefeitos. Ou seja, quando tudo parecia condená-la, esta linguagem está mais viva do que nunca. E fala pelos cotovelos. Razões, portanto, para entrar nesta Festa da Ilustração, que, na sua segunda edição, volta a transformar a cidade em cruzamento.